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Mês: fevereiro, 2012

[apanhado]

Na semana passada, o blog da Companhia das Letras divulgou um post do The Millions com uma lista dos mais interessante tumblrs literários. Tem de tudo: copilação do livros lidos pela Lisa Simpson, citações de Dostoiévski, títulos de livros alterados para spoilers engraçados, etc.

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Falando em tumblr, o The Composites é um recente, que cria através de um software rostos de personagens ilustres da literatura. Ficam um tanto macabros, mas é curioso. Estão lá o Juiz Holden, Sam Spade, Humbert Humbert, entre outros.

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No Meia Palavra, nosso autor Gustavo Melo Czekster resenha “A cruzada das crianças/Vidas imaginárias”, de Marcelo Schwob.

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Vinte grandes clássicos da literatura que você pode ler na internet sem medo de ser feliz. A SuperInteressante reuniu dez títulos da literatura brasileira e mais dez da literatura mundial que estão em domínio público.

[um poema] Walt Whitman

Certa vez passei por uma populosa cidade
guardando no meu cérebro impressões para uso futuro,
com suas mostras, sua arquitetura, costumes
e tradições,
embora dessa cidade agora eu recorde apenas
uma mulher que encontrei por acaso,
que me deteve por amor de mim,
dia a dia e noite por noite juntos estivemos –
tudo mais foi há muito tempo esquecido por mim,
garanto que só me lembro dessa mulher
que se prendeu apaixonadamente a mim,
de novo caminhamos, nos amamos, nos separamos
de novo, de novo ela me pega pela mão,
não preciso ir-me embora,
vejo-a bem perto a meu lado com silenciosos lábios
tristes e trêmulos.

(tradução de Geir Campos)

[artigo] Dos perigos de se ter leitores

Gustavo Melo Czekster*

Quando uma pessoa escreve um livro, ela também se torna o primeiro leitor. Poderia afirmar-se o único, não fossem as criaturas que se escondem nos fundos das gavetas e nos recônditos ocultos dos armários.

No instante em que publica o livro, porém, esta mesma pessoa passa a ser o autor: figura misteriosa, demiurgo solitário, que aspirou a fumaça invisível da inspiração, retirando a história do ar para fazer o verbo e transformá-la em papel. Contribuem para esta imagem etérea declarações como a de Jules Renard, no “Diário” (fevereiro de 1895): “A história que estou escrevendo existe, escrita na forma mais absolutamente perfeita, em algum lugar, no ar. Tudo o que preciso fazer é encontrá-la e copiá-la”. Sempre tive medo desta frase: acreditar nela é imaginar um mundo cheio de histórias soltas, vagando a esmo, aptas a invadir qualquer pessoa e se alojarem como vírus nas suas cabeças.

Todo autor, ao publicar o livro, deseja ser lido pelo maior número de leitores disponíveis. Sim, Umberto Eco, estou me afastando da tua ideia de que o autor escreve somente para o Leitor Ideal, figura criada pela sua mente com a qual ele interage em um diálogo fictício, pois a verdade é que, até hoje, só vi escritores que desejam ser lidos pela maior quantidade possível de pessoas. O problema é que o autor não sabe quem irá ler a sua obra, muito menos o tipo de leitura que nascerá da pororoca formada no encontro das suas palavras com a imaginação do leitor. E aí mora o perigo.

O leitor é livre. Ele pensa o que quiser e, não raro, lê o que não foi escrito. Ele conversa com a história, corrige os finais de que não gostou, responde as dúvidas deixadas. Ele até mesmo perdoa deslizes narrativos ou incongruências da personagem. No entanto, é implacável se o autor tenta enganá-lo ou abusa da sua confiança; nestes casos, a pena é a cessação do ato de ler e a condenação do livro ao rol dos não lidos.

Na condição de autor, sou constantemente assombrado por leituras dos mais diversos tipos. Existem pessoas que viram sombras e teceram associações que eu não escrevi (inclusive posso adiantar que são bem interessantes. Quisera eu ter escrito as versões alternativas). Houve aquela senhora que levou o livro para o seu grupo de estudos da Bíblia e, na outra semana, comprou mais 15 exemplares, um para cada integrante. A última informação que tive foi que eles estavam encontrando alusões e ecos das minhas palavras nos textos do Velho Testamento. Outra leitora afirmou ter ganhado R$ 42.000,00 na Loteria Federal utilizando uma insólita combinação de páginas do livro com frases, palavras e números de linha. Ela explicou a fórmula, mas não sei se devo torná-la pública. Outro, após ler os três contos iniciais, perguntou se eu estava louco, pois o livro não tinha nada de realidade. Considerando-se que literatura não é realidade, é consolador saber que me descolei tanto da verdade a ponto de ser considerado irreal. De todos eles, o melhor leitor foi aquele que, ao ler um conto, travou. Não entendeu nada. Achou a história um lixo. Lixo que se forçou a ler uma segunda e uma terceira vez, em cada uma delas achando o conto ainda pior. No entanto, ao dormir, sonhou. E, ao acordar, releu e entendeu. Agora anda por aí, vendo reminiscências da minha história em cada fato da sua vida. Não sei o que ele entendeu, e não sei se quero saber. A leitura dele não me pertence.

Não posso deixar de mencionar aqueles que, além de comprar o livro, fotografaram-no nas mais variadas situações: na porta da Livraria Cultura, na beira da piscina, andando de carro com a janela aberta, passeando num metrô espanhol. É muito legal saber que o meu livro está curtindo uma vida própria, muito mais rica do que na época em que habitava as gavetas e delas cedia milimétricos espaços à fome das traças.

Certa vez, perguntaram a Jorge Luis Borges o que sentiu quando, ao lançar uma de suas primeiras obras, vendeu 17 exemplares. Ele respondeu que se sentia muito bem, porque conseguia imaginar 17 leitores lendo o seu livro, algo impossível de visualizar se fossem centenas de milhares de pessoas, uma multidão de rostos desvanecidos. Além disso, acrescentou que, com 17 leitores, poderia perfeitamente bater na porta de cada um deles, entrar para tomar chá e discutir os seus contos. É um pensamento que suaviza, mas não oculta a verdade: leitores são criaturas perigosas. Eles podem fazer o que quiserem com o livro, inclusive lê-lo. Podem pensar as mais variadas possibilidades, até mesmo nada. Podem ver teorias da conspiração onde a inverdade é a única regra. Podem mudar a sua própria vida lendo. Porém, mais do que tudo, os leitores podem sonhar além do papel. Em qualquer regime de tirania, os primeiros a serem sacrificados são os livros. Pensando melhor, talvez o objetivo não seja destruir obras literárias, e sim evitar que sonhos de papel possam colidir com a opressão. Por isto, justamente por serem perigosos, é que leitores são tão importantes. Eles podem mudar o que quiserem… e tudo começa com o simples ato de virar a página.

* Gustavo Melo Czekster é mestre em Literatura Comparada e autor de O homem despedaçado – também escrevendo no blog homônimo.

[conversa de editor] Parece fácil, mas não é: a arte de encontrar um livro em uma livraria

Gustavo Faraon*

Pode parecer que é exagero, mas muitas vezes encontrar um livro específico nas livrarias – se ele não for o best-seller da vez, com centenas de exemplares empilhados na entrada da loja, é claro – pode acabr se tornando uma tarefa das mais penosas. Isso porque cada rede tem seu próprio sistema de organização, e não raro eles mais atrapalham do que auxiliam seus clientes na busca pelos títulos.

Uma delas (a Saraiva), além da divisão tradicional entre autores de ficção nacionais e internacionais, criou uma subdivisão para livros policiais de ficção. Em algumas praças, como Porto Alegre, há ainda uma seção dedicada a autores locais. Nesse cenário, o leitor que busca um determinado livro de ficção policial escrito por um autor local terá que percorrer ao menos três seções na livrarias ante de encontrar o que busca. Isso caso a edição não tenha sido impressa em um formato menor que o tradicional 14×21 cm, pois então ainda é possível que o mesmo esteja junto dos pocket books.

Esse tipo de confusão, é claro, não é exclusividade de nenhuma rede. Já encontrei livro de crônica na área destinada a turismo na Travessa, no Rio de Janeiro, e uma antologia de contos de autores lusófonos junto de gramáticas e dicionários, na Livraria da Vila, em São Paulo.

Nessas horas, tudo que o editor pensa é: para que diabos então serve a ficha catalográfica, senhores?

* Gustavo Faraon é editor da Dublinense e da Não Editora.