dublinense

Just another WordPress.com site

Mês: janeiro, 2012

[apanhado]

A imagem acima circulou pelo Facebook nos últimos dias. A declaração do diretor de cinema Jim Jarmusch, autor de Daunbailó e Flores Partidas, versa sobre as influências externas no processo de criação artística – afirma não haver originalidade e que ser autoral é, na verdade, usar com honestidade os fragmentos de obras alheias. É o ponto de partida para uma longa discussão acerca de intertextualidade, que podemos pensar lendo este conto do Bolaño, escrito a partir de uma foto.

*

Todo autor que já tenha dado entrevistas já ouviu a pergunta “Qual seu livro favorito?”. Seja assim mesmo, seja posta de outras maneiras, a questão sempre surge, a curiosidade é inevitável. As dicas são, em verdade, mais que dicas e podem nos dizer uma ou duas coisas sobre o escritor em questão. Pensando nisso, o portal Flavorwire copilou listinhas de favoritos de dez autores contemporâneos. Além de interessantes, revela algumas surpresas. Vai dizer que você já havia pensado no David Foster Wallace adorando Stephen King?

*

Para quem gosta de capa de livros: a editora 7Letras lançará catorze títulos que serão vendidos com diferentes opções de capas. Os diferentes designs poderão ser escolhidos ao comprar no site da editora ou da Livraria Travessa. Isso graças à parceria com a Singular Digital, que imprimirá as obras sob demanda, de acordo com o que o leitor escolher (via Publish News).

[artigo] As razões da escrita

Ademir Furtado*

A literatura já refletiu muito sobre si mesma, na tentativa de desvendar o seu próprio mistério: os propósitos que levam algumas pessoas a se ocuparem por toda a vida a contar histórias fictícias. No livro Por que escrevo?, uma coleção de depoimentos organizada por José Domingos de Brito, vários escritores célebres abordam esse tema, na tentativa de responder à pergunta que dá título ao livro. As respostas são tão diversas quanto os entrevistados que as proferiram. Mas, de uns anos para cá, outra perspectiva vem se configurando entre os amantes da Literatura. Seja por desinteresse da questão original, ou apenas atração pelo exótico, o fato é que a curiosidade pelas motivações mais profundas dos escritores consagrados se voltou para uma atitude de caráter mais prático, no sentido de querer saber como a gente escreve.

Livros como Oficina de Escritores, de Stephen Koch, e Os Segredos da Ficção, de Raimundo Carrero se propõem a contribuir para o debate. Na verdade, essa preocupação não é nova. O que parece inédito é o fascínio que a prática da escrita exerce sobre tantas pessoas. Assim, a questão assume outro nível de importância. Ou, melhor dizendo, outra interrogação surge: por que hoje em dia tanta gente quer ser escritor?

Alguns aspectos da vida moderna podem servir de base para reflexão. Vivemos numa época em que ter atitude é quase uma obrigação moral. Por isso, pouca gente se satisfaz com a simples contemplação de obras alheias. A ordem do dia é agir, tomar iniciativa, e dirigir o próprio destino. A internet contribui muito pra incentivar essa mentalidade, pois quem quer escrever, pode criar uma página virtual e publicar o que bem entender sobre o assunto que lhe agrade. Após um período de exercício on-line, onde adquire um pouco de habilidade com o texto e conquista alguns leitores, o novo autor se lança finalmente para as páginas impressas em papel. Quem acompanha os eventos de publicação e sessões de autógrafos constata que um traço bem comum entre os novatos é a origem no espaço virtual.

Dito isso, é possível arriscar um palpite para encontrar as razões que levam tanta gente para o mundo da escrita. Um traço bem marcante do individualismo dos tempos atuais é a supervalorização da vivência pessoal. Com isso, muita gente que antes ficaria calada, ou apenas dialogando com seus escritores preferidos através dos livros, se sentiu autorizada a publicar seus próprios devaneios, e com eles marcar suas presença no mundo. Então, mais do que ser um escritor famoso, se tornar um imortal, ganhar o Nobel, a intenção é aprender a lidar com um instrumento poderoso de expressão e com ele traçar algumas linhas de direção. O ato de escrever é um exercício de percepção e compreensão do mundo, e uma maneira bastante eficaz de organizar o pensamento. Escrever bem é pensar bem. No processo de construção de uma obra literária o escritor é levado a cavoucar a vida real para tirar o material de que precisa. Ele cria um personagem e, para dar-lhe uma existência verossímil, pode buscar na própria bagagem existencial a história que vai desenvolver na sua obra. É nesse momento, então, que o ato de escrever se torna uma experiência fascinante. Entender a si próprio é o primeiro passo para o indivíduo saber qual é o seu lugar no mundo. E depois de se localizar é mais fácil saber para onde quer ir.

* Ademir Furtado é escritor, autor do livro Se eu olhar pra trás. Também escreve no blog Prosaredo.